Guiné-Bissau: uma missão dentro da missão

Começamos este texto pela dicotomia que sentimos no dia 20 de agosto, aquando da nossa chegada à Guiné-Bissau. Para o Marco, era a primeira vez que aterrava em solo guineense. Para mim, Carolina, era a terceira, depois de 2010 e 2021. E talvez por isso tenhamos chegado a lugares diferentes, apesar de termos aterrado no mesmo país.

Para mim, tudo — ou quase tudo — parecia familiar. As ruas, os rostos, os sons, os cheiros. Havia qualquer coisa que me dizia que, de alguma forma, eu já pertencia àquele lugar. Para o Marco, tudo era novo. Intenso. Distante. Quase como se tivesse entrado numa realidade paralela.

Ao final do primeiro dia, depois de um profundo suspiro, ouvi-o perguntar:

“Como vou viver aqui um mês?”

Sorri. Talvez porque soubesse que aquela pergunta, mais cedo ou mais tarde, haveria de encontrar a sua própria resposta.

As diferenças estruturais, culturais e até climáticas já me eram familiares. Mas aquele momento fez-me recordar que estávamos, os dois, a sair do lugar confortável onde habitualmente vivemos. E que esta missão nunca tinha sido apenas sobre ir. Era sobre sair de nós mesmos para ir ao encontro do outro.

Fomos à Guiné-Bissau com um propósito muito concreto: acompanhar a obra da escola do GRITAH, um projeto há tanto, mas tanto tempo esperado. Uma escola que ainda é feita de paredes por levantar, de cimento, de areia, de esforço e de muitas mãos. Mas que, muito antes de ter paredes, já existia no desejo de uma comunidade e na esperança de todos aqueles que há anos aguardam que aquele lugar se transforme numa escola. E talvez tenha sido precisamente aí que percebemos que construir uma escola é muito mais do que levantar paredes.

É construir possibilidades. É abrir portas antes mesmo de elas existirem. É acreditar que uma criança que hoje corre por entre terra e cimento poderá amanhã sentar-se numa sala de aula, aprender, sonhar e escolher o seu próprio caminho.

Durante aqueles dias, acompanhámos a construção e fomos percebendo que cada parede tinha muito mais do que tijolo e argamassa. Tinha espera. Tinha persistência. Tinha o trabalho de tantas pessoas que acreditaram que, um dia, aquela escola haveria de existir.

E nós tivemos o privilégio de estar lá nesse momento. Mas levámos connosco uma aprendizagem que ultrapassa largamente a obra. Porque, enquanto construíamos paredes, fomos também construindo uma memória feita de pessoas. Cada pessoa que passou por nós deixou qualquer coisa.

Um rosto. Um sorriso. Uma palavra. Uma história. Uma mão estendida. Um abraço. E hoje, quando pensamos naquela obra, já não vemos apenas paredes. Vemos as pessoas que lhes deram sentido. Talvez seja esta uma das coisas mais bonitas de construir: perceber que aquilo que levantamos com as mãos pode guardar para sempre aqueles que encontramos pelo caminho.

Há, contudo, uma ideia que sentimos necessidade de deixar escrita.

Uma visão ocidental, tantas vezes marcada por uma matriz judaico-cristã, pode levar-nos a pensar que ir ao encontro de uma realidade como a guineense significa “abaixarmo-nos” para chegar ao outro. Como se tivéssemos algo a ensinar. Como se, de alguma forma, partíssemos de um lugar moral, social ou cívico superior.

Hoje sabemos que não. E talvez esta tenha sido uma das maiores aprendizagens da nossa missão: não precisamos de nos abaixar para chegar ao outro. Precisamos de nos despir daquilo que julgamos saber. É aí que começa o verdadeiro encontro. Tentamos, por isso, descrever a Guiné-Bissau da forma mais transparente que os nossos olhos conseguem alcançar e que as palavras que conhecemos conseguem traduzir. Mas rapidamente percebemos que as palavras, por vezes, são pequenas demais para certas experiências.

Não somos linguistas, nem temos a pretensão de inventar novas palavras. Temos apenas aquelas que a nossa língua nos ensinou e algumas outras que o crioulo guineense nos trouxe ao coração. Nós, Carolina e Marco, somos um jovem casal, casados há três anos, sem filhos. Esta missão nasceu, antes de mais, como uma oportunidade para nos conhecermos melhor e para procurarmos compreender o propósito da nossa vida juntos. Uma pequena missão dentro da missão maior que é a vida.

A nossa vida!

Mas, como a missão é sempre muito maior do que aqueles que se propõem vivê-la, vamos ao que realmente importa.

Vamos à Guiné-Bissau. Uma beleza que não cabe numa fotografia. Como tenho um olhar profundamente apaixonado pela Guiné, decidimos desta vez tentar descrevê-la pelos olhos do Marco. E ele chegou a um país cuja beleza não se deixa captar à primeira vista. As ruas continuam de terra. Há lixo, embora com maior esforço para o seu combate pelo domínio público. Há pobreza. Há dificuldades que não conseguimos ignorar. Se tivermos um olhar meramente “fotográfico”, talvez seja difícil dizer que a Guiné é bonita. Mas a Guiné não se deixa fotografar assim. É preciso ficar. É preciso olhar mais demoradamente. É preciso deixar que o país nos entre pelos sentidos.

A beleza está no verde que parece não ter fim. Está nos animais, de todas as cores e formas, que surgem inesperadamente e desaparecem no meio da paisagem. Está nos sons, nos cheiros, nos caminhos de terra. Mas, acima de tudo, está nas pessoas. Está no sorriso extraordinariamente branco, limpo e puro de uma criança. Está naquele “bom dia” que chega em crioulo — “kuma ku mansi” — antes mesmo de sabermos de onde vem a voz. Está no simples “branco” que se ouve ao longe e que nos faz perceber que, naquele momento, alguém nos viu. E talvez seja essa uma das maiores riquezas da Guiné: a capacidade de nos fazer sentir vistos.

A Guiné é um mundo de culturas, marcado por séculos de história, mas unido por uma identidade que nos surpreende pela sua capacidade de acolher. É um país onde diferentes religiões e os seus seguidores partilham o mesmo espaço com respeito e naturalidade. E isso, para quem vem de fora, é uma lição. Uma lição silenciosa. Uma lição que não precisa de discursos.

Fomos para a Guiné com a ideia de que íamos acompanhar uma obra e, de alguma forma, contribuir para que ela avançasse. Regressámos com a certeza de que recebemos muito mais. Recebemos histórias. Recebemos sorrisos. Recebemos abraços. Recebemos tempo. Recebemos a oportunidade de olhar para aquilo que temos e perceber aquilo de que realmente precisamos. E talvez tenha sido aí que a nossa ideia inicial de missão se transformou. Não fomos para “salvar” ninguém. Não fomos para ensinar a viver. Fomos para estar. Para escutar. Para trabalhar. Para construir. Para caminhar ao lado. Para aprender.

E, no meio de sacos de cimento, tijolos, paredes e dias de trabalho, percebemos que a verdadeira obra não estava apenas diante dos nossos olhos. Estava também dentro de nós. Cada parede levantada parecia guardar um rosto. Cada tijolo parecia carregar uma história. Cada pessoa que connosco partilhou aquele tempo passou a fazer parte daquilo que levámos de volta. Porque, no final, uma obra não se mede apenas pelo que fica construído. Mede-se também pelas pessoas que ficaram dentro de nós. Por isso, talvez seja necessário reformular aquela ideia ocidental de nos “abaixarmos” para chegar aos guineenses. Não precisamos de nos abaixar. Precisamos de nos encontrar. De igual para igual. Porque é precisamente quando deixamos de olhar para o outro como alguém que precisa de nós que começamos, verdadeiramente, a vê-lo.

A escola do GRITAH continuará a crescer. As paredes ganharão novas salas, novos espaços, novas histórias. E um dia, esperamos, haverá crianças a entrar por aquelas portas sem saber que, muito antes de elas ali chegarem, houve quem esperasse, trabalhasse e acreditasse para que aquele lugar pudesse existir. Nós tivemos apenas o privilégio de passar por lá numa pequena parte dessa história. Mas regressámos com a sensação de que também nós ficámos um pouco naquelas paredes.

E talvez seja essa a beleza de uma missão: deixarmos alguma coisa nossa num lugar e, sem darmos conta, trazermos connosco muito mais do que aquilo que deixámos. A Guiné espera por todos aqueles que se queiram redescobrir. Por aqueles que precisam de recomeçar. Por aqueles que procuram recordar a essência e o propósito da vida. Porque a Guiné não alimenta o nosso estatuto. Não sustenta aparências. Não precisa de likes. Não vive de algoritmos. A Guiné pede-nos apenas presença. Um olhar. Uma mão. Um abraço. E, talvez por isso, regressámos diferentes.

Não porque tenhamos deixado alguma coisa na Guiné. Mas porque trouxemos connosco qualquer coisa que não sabemos explicar. Qualquer coisa que não cabe numa fotografia. Que não cabe num relatório. Que não cabe sequer nas palavras que conhecemos. Trouxemos humanidade. Trouxemos proximidade. Trouxemos respeito pela condição humana. E trouxemos uma expressão que, para nós, passou a dizer muito mais do que “estamos juntos”.

“Nô Sta Djunto” E talvez seja isso que fica de uma missão: perceber que, no fundo, nunca fomos tão diferentes assim. E que, quando verdadeiramente nos encontramos, já não existe “nós” e “eles”.

Existe apenas nós.

Carolina e Marco Freitas da Silva
Ourém, 27 de setembro de 2026

Na foto: Carolina e primeiras crianças e famílias inscritas na escola