II Oficina de Artes e Direitos Humanos – uma carta de Aurélio Moreira

Às vezes, quando nos convidam para escrever e não sabemos sobre quê, o caminho da saída mais airosa que se vê é o de inventar umas coisas mais ou menos cerimoniosas, mais ou menos neutras, universais, aplicáveis tanto a eventos camarários como associativos, familiares ou sociais, mas esse problema, eu não tenho, já que preciso de falar sobre umas pessoas que me receberam surpreendentemente bem – a mim, que não me conheciam de lado nenhum –, contrariando ideias comuns e muitas vezes mal disfarçadas de desconforto causado por um elemento estranho ao conjunto, traduzidas num olhar de “o que é que este tipo veio aqui fazer?…”

Eu bem sei que tinha sido convidado pelo vosso mentor Jozé Sabugo e, portanto, tinha um trunfo sobre alguma estranheza natural, mas as boas-vindas que os vosso olhares, gestos, sorrisos e amabilidades várias me deram só se explica com generosidade, ser-se bom no sentido que tem mais raízes no nosso campo do que nas nossas cidades, mais longe da competição e da agressividade latente, mais perto da humanidade e da decência e do altruísmo que aparecem de quem os tem, depois de vencida a desconfiança original, que nos vem talvez dos antepassados com vidas mais duras, com menos oportunidades para pensar nos outros.

O que eu convosco vivi no dia 16 de Agosto, no Seixoso, foi alimentação para a alma e para o corpo que cada um de vós me serviu vá-se lá sabor porquê e que eu sorvi, regalado, saboreando, e ainda guardando uma parte para o Inverno, tal como os esquilos, não vá o diabo tecê-las…

Quem haveria de dizer que estava perto da Lixa muita da beleza de que tento rodear-me, por necessidade! Sei qual é, sei quem são. E se porventura me esquecer de referir alguém, não é tanto por cegueira, mas mais por funções cerebrais emperradas irritantemente, nada mais do que isso.

Lembro-me de cada individualidade em comunicação especial comigo. É claro que aqueles que acompanhei na nossa caminhada de subida à serra e volta têm vantagem na minha memória, pelo maior tempo de antena, pelas confidências trocadas na subida e na descida (já com pressa de almoçar) e pelos pitorescos de uns poemas e de um chapéu.

Se eu começar a listar nomes, isso é muito interessante para quem lá aparece, mas uma armadilha criada a mim próprio sempre que me esquecer de nomear alguém. Para atrair rapidamente as atenções para outro lado, devo lembrar os que ficaram para trás nesse dia para prepararem o nosso almoço – e que almoço. Mas devo também lembrar o que aconteceu na serra, o desaparecimento do Sabugo, a conversa sobre o Jung enquanto parámos à espera dele, o dispositivo de socorro que imediatamente se montou para localizar o nosso colega, com recurso até a um “zângão electrónico” (não é isso que quer dizer drone?…), o impacte do edifício do antigo sanatório que nos saiu ao caminho, o miradouro, o antigo palco para entretenimento dos internados, a casa do proprietário, a fonte de água fresca que salvou o grupo, as sequóias de 37 metros, a comunhão com a natureza coreografada pela Cesária, que, entre mais proezas, conseguiu que eu beijasse a mão à Carla sem esta se queixar à Polícia e – pasmem! – que a Carla me beijasse a mão!…

No regresso, o meu colega de subgrupo dos vários em que se dividiu o grupo para conversas a dois, decidiu trazer ao ombro um pinheiro caído, de porte um tanto intimidante, mas não para ele. E lá fomos falando do Rally de Portugal de outros tempos enquanto ele equilibrava aquele tronco no seu ombro… Tudo normal.

Neste momento, o tempo pára, para rezarmos um pouco em agradecimento pelo almoço, que os destacados para o fazerem venceram com distinção grelhando carnes em dia tão quente, organizando tudo, gerindo tudo, concentrando tudo na grande mesa-balcão, mas, de repente, também trazendo, lampeiros, tachos e assadeiras do além, fumegantes de arroz de forno, batatas de forno, maravilhas de forno (também pão) com que uma milagrosa vizinha activista e cooperadora quis contribuir para a nossa aproximação aos céus do Olimpo. Extraordinário! Tive a fortuna de conhecer a autora de tamanha obra de misericórdia, a D. Aida, e tive a honra de a ter à minha mesa a almoçar e conversar, uma mesa escolar, primária, trazida pelo ar com a destreza de um artista de circo pelo nosso amigo grelhador improvisado, irmão gémeo do nosso amigo “apicultor da Protecção Civil”.

Eu deveria lembrar-me de todos os nomes, uma vez que a Beatriz teve o cuidado e o génio de fabricar etiquetas autocolantes de modo a que todos tivéssemos essa informação. Mas por qualquer razão que não vou perder muito tempo a analisar porque sai do âmbito da encomenda que me foi feita, só me lembro de alguns, de uma forma totalmente aleatória, que nada tem a ver com géneros nem credos nem tons de pele. Deus nos livre!

Lembro-me do nosso amigo que veio com o Sabugo de Sintra e que eu já conhecia da tertúlia literária de lá, lembro-me da banda sonora electrónica do dia, uma realização coordenada pelo nosso amigo professor do secundário, músico e cinéfilo, lembro-me dos homenageados Autarca Local e Poeta Local, tendo este último, por sua vez, homenageado a nossa amiga artista plástica de serviço, durante a inauguração da biblioteca da GRITAH, lembro-me dessa outra artista da fórmula do barro para fazer os tijolos e orientadora da nossa oficina da tarde que visa construir um forno comunitário.

Também o arquitecto que depois dos tijolos fazia tijoleira de chão e parte importante do projecto de uma escola primária para alunos do ensino primário da Guiné-Bissau. Também da nossa amiga professora de Físico-Química, da nossa amiga equipada com as cores de um clube que não me é nada simpático, mas me conquistou pela simpatia e por vir ajudar a arrumar sem ter almoçado daquele almoço! E deixem-me agradecer ao meu “oficial de ligação”, David, pela ligação constante ao GRITAH via WhatsApp, de onde recebo as mensagens para as missões, que se autodestroem em 10 segundos (as mensagens).

Claro que me vou esquecer de alguém porque os vapores errantes da comida parecem ter trazido confraternizantes de todo o lado e arredores, que rapidamente encheram aquela sala, certamente por magia…

É verdade que o Zé Sabugo me desencaminhou para repetir a dose no dia 13 passado, mas eu ainda estava afectado por uma expedição de carro a França, de que tinha acabado de chegar. Sou o que mais lamento a falta, pelo adiamento de vos poder rever. Mas é só um adiamento. Anseio por voltar a receber os vossos abraços, seja no Seixoso, na Lixa-cidade, em Sintra, na Guiné-Bissau…

Já gora, outro pedido: não deixem de me convidar: não me lixem!…

Aurélio Moreira
Porto

II Oficina de Artes e Direitos Humanos, 26 de julho de 2025

 
Biografia Aurélio Moreira
Tendo começado como revisor de imprensa no “Jornal de Notícias”, no Porto, fez parte da primeira equipa da Redacção do Porto do jornal “Público”, tendo exercido a função de jornalista na secção de “Copy Desk” durante 35 anos. Actualmente lecciona a cadeira de Histórias de Palavras na “Universidade Sénior” Vita Vivet, no Porto. Escreve prosa e poesia e colecciona livros, antiguidades e velharias.