II Oficina de Artes e Direitos Humanos – uma carta de Jorge Cardoso

O correr da vida embrulha tudo,
a vida é assim: esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta.
O que ela quer da gente é coragem.
Guimarães Rosa

Concordo que é precisa coragem, mas não só.
Eu acrescentaria que a vida é um pouco (ou muito?) o embate entre o desgaste irremediável de todos os processos organizados e a luta para a sua permanente reorganização. A ciência designa esse processo de desgaste, por entropia. Sem pretender apresentar uma definição científica do que é entropia, não ando longe, contudo, se eu disser que entropia é o desarranjo gradual e inevitável de qualquer sistema, se ele for deixado ao seu próprio cuidado e se não houver uma força interventiva que, ao actuar nesse sistema, reverta o caminho inevitável dessa degradação. O ferro torna-se ferrugem, as casas degradam-se e caem, ou são invadidas pela natureza, etc. etc. etc.

De igual modo, nas relações humanas, há sistemas que, deixados a solo ou ignorados, dificilmente conseguem acompanhar as mudanças que outros sistemas, noutros pontos do mundo estão a produzir.
Há sempre a possibilidade de que haja uma força algures, capaz de entender a, ou as formas de reorganizar esse caminho: essa força é constituida por pessoas e o seu núcleo central, chama-se amor.

Amor é essencialmente, uma força positiva que, tomada sob o ponto de vista da entropia, faz o caminho oposto à degradação nas relações humanas, quer elas sejam materiais, quer elas estejam para além do material. Ver em ação, uma pequena parte desta energia, invisível aos olhos de olhar, participar um pouco na sua transmissão e saber que, mau grado muitas razões que o mundo inteiro nos apresenta em permanência para não acreditar na sua existência, a verdade é que ela existe e a entropia nas relações humanas, terá sempre, uma força contrária, vinda dos locais mais inesperados. Convivi uns quantos dias com um grupo de jovens na Lixa e estes dias foram suficientes para “tirar alguma ferrugem”, a que outros sistemas humanos corrosivos insistem a me expor. GritaH, dizem eles, mas o que grita são as suas ações.

Participar no vosso grupo, estar presente no dersenvolvimento das vossas actividades, conhecer as pesso-as, o envolvimento da própria natureza, limpou em mim, muitos resíduos desgastantes com que sou/somos permanentemente atingidos.

Em suma: fui limpo de muita da entropia que me tem atingido.
Quanto ao vosso projecto com a Guiné, que eu não conheço com detalhe, ele é “apenas” um dos combates permanentes e necessários à humanização da vida na Terra, ou seja, um combate permanente à entropia das relações humanas.
Senti-me em casa todo o tempo, bem recebido por todos. (uma palavra à parte de simpatia para a senhora que mora ao lado da escola).

Muito obrigado ao GritaH.

Mem Martins, 6 de Novembro de 2025
Jorge Cardoso

II Oficina de Artes e Direitos Humanos, 26 de julho de 2025

 
Biografia Jorge João de Sousa Cardoso:

Biografia de uma linha só, roubada a Fernando Pessoa, (com uma ligeira adaptação):
“Não posso querer ser nada. À parte isso, sempre tive em mim todos os sonhos do mundo”.

Alguns acréscimos mais detalhados:
Nascido em Lisboa a 24 de Maio de 1946, terceiro de quatro irmãos.
Dos dez anos aos vinte, deleguei grande parte de mim mesmo em vários autores: Panait
Istrati, John Steinbeck, Fiódor Dostoiévski, Rabindranath Tagore, Eça de Queirós, Camilo
Castelo Branco, Primo Levi, Leão Tolstoi, Nikos Kazantzákis; primeiro estes, depois muitos
outros, tomaram o meu lugar interior, e quase me puseram de fora de mim mesmo.
1958 a 1961 – Frequência de várias escolas não escolhidas, excepto a Escola António
Arroio, escola de Artes e Liberdade, digo eu (de 1961 a 1964), onde completei o Curso de
Desenhador Gravador Litógrafo, tendo obtido o prémio D. Diniz da escola, no final do curso.
1964 – Dez meses de trabalho numa agência de publicidade…
1965 – …até me oferecer como “voluntário” para a Força Aérea (1965 a 1969), com a
aquisição da formação em radiotecnologia (para não ir para uma guerra com que não tinha
nada a ver, e não fui).
1969 – Entrada num projecto empresarial cooperativo que fez história: PRAXIS. Foi a minha
segunda escola e, em muitos aspectos, mais importante que a António Arroio. Não dá para
dizer nada mais sobre isso, aqui.
1972 – Casamento, do qual resultou uma filha e um filho. Divórcio em 1980.
1973 a 1976 – Atelier de design em sociedade com outros três designers.
1976 a 1984 – Atelier de design em nome próprio.
1984 – Deslocação de residência para Sintra, para exercer o cargo de Arte Director numa
agência de publicidade Suiça, com autonomia para realizar outro tipo de actividades. Entre
outras: exposições (aguarela, cerâmica e design), individuais e colectivas. Produção de peças de cerâmica de escala grande a bastante grande, em Lisboa, Fátima, Elvas, Sintra, A-da-
Beja, Portimão, Montemor, Monte Redondo, México, Moçambique. Escultura em madeira – Peniche.
1984 a 1996 – Diversos cursos de formação (Infografismo Editorial, Tratamento de imagem
computacional, Formação em Técnica Fotográfica, Formação de Formadores – dois cursos).
2004 – Segundo casamento com a professora, artista plástica, pedagoga, poeta, caricaturista,
jornalista, Maria Almira Medina.
Design gráfico de dezenas de livros com várias editoras – Rolim, Sérgio Guimarães, Afrodite,
Casa das Cenas.
Ilustrador em livros infantis.